Um upgrade na interpretação do “GENTILEZA GERA GENTILEZA” - Belo Horizonte de A a Z
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Um upgrade na interpretação do “GENTILEZA GERA GENTILEZA”

Nesta sexta-feira decidi escrever sobre algo mais ameno, a semana já foi por demais pesada para dissertar sobre coisas que exijam muitos links e termos acadêmicos (ufa! fim de semana). Na última terça-feira, um colega de trabalho me mostrou um vídeo e foi assim que parei para pensar sobre uma qualidade tão falada e nem sempre encontrada no dia-a-dia: a gentileza.

“Você pagaria um sorvete para um desconhecido?”. Esta pergunta serviu como pano de fundo para uma ação da Kibon que vem repercutindo nas redes sociais. A produtora que idealizou o vídeo apostou no conceito de uma espécie de corrente do bem. Foram instaladas câmeras escondidas em uma loja de conveniência para flagrar a reação de pessoas que, ao chegarem no caixa com o sorvete que escolheram no estabelecimento, descobrem que o produto já foi pago.

A campanha garante que 97% das pessoas que participaram da ação optaram por pagar pelo picolé e, assim, dar continuidade à iniciativa chamada de “corrente da felicidade”. Bem… ao ver a ação, comecei a pensar sobre essa necessidade que temos de ser bacana apenas após alguém ser gentil com a gente. Os pensamentos foram um pouco além da mensagem inicial do vídeo que havia acabado de assistir. Na minha análise, tudo aquilo se encaixava naquela velha lógica de dar esperando receber em troca. No caso, dar em troca após receber.

Você consegue ser gentil com o motorista que acaba de te fechar no trânsito? Sinceramente, na hora eu só penso que ele é um broxa, ruim de roda, egoísta e muito mais (é melhor parar por aqui). Mas, ainda assim, luto diariamente para não mostrar o dedo do meio para o camarada no momento de raiva ou, motivada por um desejo cego de vingança, acelerar e descontar a “fechada” (não minto, isso passa pela minha cabeça).

Só que aprendi de uns tempos para cá que ser gentil com os babacas me faz bem. Acho que acabo por me sentir “superior”, sei lá. Estou longe de me rotular como uma criatura celestial, mas, após protagonizar alguns momentos de ódio no trânsito e em outros ambientes, percebi que os babacas não irão mudar porque eu resolvi dar uma resposta também babaca às suas babaquices.

Por isso que a interpretação que se dá hoje ao “GENTILEZA GERA GENTILEZA” me causa um pouco de ojeriza. Muita gente realmente não sabe como este conceito se espalhou pelo Brasil, porque quem disseminou a ideia realmente não levantaria a bandeira “GROSSERIA GERA GROSSERIA”, defendida subjetivamente por uma parcela da sociedade.

Tudo começou com José Datrino, mais conhecido como profeta Gentileza. Resumidamente, um homem que abandonou suas posses na década de 1960 e se dedicou a pregar nas ruas do Rio de Janeiro um conceito de vida. Ele ficou conhecido após encher as pilastras do Viaduto do Caju com inscrições em verde-amarelo fazendo críticas ao mundo e propondo uma alternativa ao mal-estar da civilização.

“GENTILEZA GERA GENTILEZA” era a mensagem-base escrita nas paredes. José Datrino morreu em 1996 e, aos poucos, suas inscrições foram sendo retiradas do viaduto. No início deste século, um projeto organizado pela sociedade civil, em parceria com a prefeitura do Rio, restaurou as pinturas e a campanha acabou se alastrando por todo o Brasil. Em 2001, a cantora Marisa Monte lançou uma música contando um trecho dessa história. Um ator interpreta o profeta Gentileza no clipe da canção.

Para mim, o profeta nunca pregou “GROSSERIA GERA GROSSERIA” porque ele não defenderia isso. Grosseria respondida com gentileza tem uma leveza muito mais interessante. Grosseria respondida com gentileza tem uma leveza muito mais interessante. Não é fácil, assim como não é tão difícil. Só sei que interpretar o conceito de José Datrino entendendo que o antônimo também vale, não soa certo. O ator Bruno Mazzeo que o diga. Nada contra ele, mas acho que a foto abaixo serve para ilustrar o tema.

Quando falo que a interpretação do “GENTILEZA GERA GENTILEZA” deveria ganhar um upgrade, quase penso em propor que a mensagem venha com um asterisco, daqueles que nos levam a um recadinho bem pequeno no fim do anúncio… e lá diria: “NEM POR ISSO GROSSERIA PRECISA GERAR GROSSERIA”. Essa provavelmente não é a melhor ideia, as pessoas não leem essas letrinhas miúdas, né!? Às vezes, elas nem entendem as garrafais (o.O).

** Maira Monteiro (@mairabas) é jornalista e escreve às sextas-feiras no Portal BHAZ.

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